quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Maranhão Colonial
 
A capitania que el-rei D. João Terceiro doou a João de Barros

No fim de 25 léguas da terra da capitania de Itamaracá, que el-rei doou a Pero Lopes de Sousa, doou e fez mercê a João de Barros, feitor que foi da casa da Índia, de 50 léguas por costa, o qual, cuidando de se aproveitar a si e a seus amigos, armou com Fernand’ Álvares de Andrade, tesoureiro-mor do reino, e Aires da Cunha, que veio por capitão da empresa, mandando com ele dois filhos seus em uma frota de 10 navios, em que vinham 900 homens. E com todo o necessário para a jornada e para a povoação que vinham fazer, se partiram de Lisboa no ano de 1535; mas, desgarrando-se com as águas e ventos, foram tomar terra junto do Maranhão, onde se perderam nos baixos.
Deste naufrágio escapou muita gente, com a qual os filhos de João de Barros se recolheram a uma ilha, que então se chamava das Vacas, e agora de São Luis, donde fizeram pazes com gentio tapuia, que então ali habitava, resgatando mantimentos e outras coisas que lhes eram necessárias. E chegou o trato e amizade a tanto que alguns houveram filhos das Tapuias, como se descobriu depois que cresceram, não só porque barbaram ainda hoje todos os seus descendentes, como seus pais e avós, senão pelo amor que têm aos portugueses, em tanta maneira, eu nunca jamais quiseram paz com os outros gentios, nem com os franceses, dizendo que aqueles não eram verdadeiros pêros (que assim chamam aos portugueses, parece em respeito de algum que se chamava Pedro) e, todavia, quando na era de 614 entraram os nossos no Maranhão, logo os vieram ver e fazer pazes com eles, dizendo que estes eram os seus pêros desejados, de que eles descendiam.
Donde se colige que não era o Maranhão a terra que el-rei deu a João de Barros, como alguns cuidam, senão esta outra que demarca pela Paraíba com a de Pero Lopes de Sousa; porque, se fora a do Maranhão, havendo seus filhos escapado do naufrágio e chegado à do Maranhão com quase toda a sua gente, e achando a da terá tão benévola e pacífica, que causa havia para que a não povoassem?
E finalmente se confirma por que a do Maranhão foi dada a Luis de Mello da Silva, que a descobriu, e não devia el-rei de dar a um o que tinha dado a outro.
João de Barros, mandou depois em outros navios buscar seus filhos, donde ficou tão pobre e endividado que não pôde mais povoar a sua terra, a qual já agora é de Sua Majestade.

Autor: Frei Vicente do Salvador
Livro: Historia do Brasil pg. 99/100
O que fazer diante do sofrimento
 
Mais cedo ou mais tarde, todos nós teremos que sofre. Uma doença grave, um acidente inesperado, a morte de um ente querido, desgraças e dilacerações de todo tipo nos obrigam um dia a tomar posição diante do sofrimento. O que fazer?
Alguns limitam-se à revolta. É uma atitude explicável: protestar, revoltar-nos diante do mal. Quase sempre esta reação intensifica ainda mais o sofrimento. A pessoa se crispa e se exaspera. É fácil terminar no esgotamento e no desespero.
Outros se fecham no isolamento. Vivem dobrados sobre sua dor, relacionando-se apenas com suas tristezas e sofrimentos. Não se deixam consolar por ninguém. Não aceitam alívio algum. Por esse caminho, a pessoa pode autodestruir-se.
Há que adotam a postura de vítimas e vivem compadecendo-se de si mesmos. Precisam mostrar seus sofrimentos a todo mundo: “Vejam como sou infeliz”, “Vejam como a vida me maltrata”. Esta maneira de manipular o sofrimento nunca ajuda a pessoa a amadurecer.
A atitude do crente é diferente. O cristão não ama nem busca o sofrimento, não o quer nem para os outros nem para si mesmo. Seguindo os passos de Jesus, luta com todas as suas forças para arrancá-lo do coração da existência. Mas quando é inevitável, sabe “carregar as cruz” em comunhão com o Crucificado.
Esta aceitação do sofrimento não consiste em dobrar-nos diante da dor porque ela é mais forte do que nós: isso seria estoicismo ou fatalismo, mas não atitude cristã. O crente tampouco procura “explicações” artificiosas, considerando o sofrimento um castigo, uma prova ou uma purificação que Deus nos envia. O Pai não é nenhum “sádico” que encontra prazer especial em ver-nos sofrer. Tampouco tem motivo para exigi-lo, como que a contragosto, para que fique satisfeita sua honra ou sua glória.
O cristão vê no sofrimento uma experiência na qual, unido a Jesus, ele pode viver sua verdade mais autêntica. O sofrimento continua sendo mau, mas precisamente por isso se transforma na experiência mais realista e profunda para viver a confiança radical em Deus e comunhão com os que sofrem.
Vivida assim, a cruz é o que há de mais oposto ao pecado. Por quê? Porque pecar é buscar egoisticamente a própria felicidade, rompendo com Deus e com os outros. “Carregar a cruz” em comunhão com o Crucificado é exatamente o contrário: abrir-se confiantemente ao Pai e solidarizar-se com os irmãos precisamente na ausência de felicidade.

Livro: O caminho aberto por Jesus
Autor: José Antonio Pagola

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

No Brasil, tudo vira mortadela
A história da mortadela no Brasil acompanha a chegada dos imigrantes europeus no início do século 20. Nos bairros centrais de São Paulo, era comum encontrar mortadela artesanal pendurada em cordas e barbantes, nos tetos dos açougues administrados por italianos.
A Ceratti, uma das mais tradicionais marcas de embutidos dos país, começou assim, como um açougue na Vila Heliópolis, periferia de São Paulo, aberto em 1932 por Giovanni Ceratti, o “seu João”. O açougueiro passou a vender embutidos em 1937, por sugestão do sogro.
Ceratti iniciou a fabricação de cotechino e de mortadela, claro para atender à demanda da colônia italiana. Foi o pioneiro na região.
Logo, o charcuteiro percebeu que a procura por embutidos superava a venda de carne fresca e decidiu focar os negócios apenas na fabricação de pancetta, mortadela, zampone e cotechino. Em 2000, a fábrica de frios mudou-se para Vinhedo.
O processo de elaboração mortadela por aqui acabou sendo alterado. Em São Paulo, a realidade era outra: não se encontravam suínos da raça italiana e ele resolveu misturar carne suína e bovina.
Nossa mortadela era ainda é muito semelhante à Bologna (ou baloney) americana: escura, com mais carne bovina que suína, gordura proveniente de outras partes do animal que não a do lombo, amaciada e ligada por algum tipo de amido, tratada com sais conservantes para evitar a degradação.
O tipo mais comum de mortadela produzida no Brasil leva miúdos de porco e de ave (estômago, coração, língua, fígado, rins, miolos) e tendões no lugar das tiras de gordura suína. E passa por cozimento no vapor com temperatura superior a 88°C, para eliminar bactérias e micro-organismos, além de nitritos e nitratos em excesso.
As classificações normativas do Ministério da Agricultura, de 2000, revelam que se admite quase tudo na mistura-base.
O resultado, claro, não poderia ser mais diferente da mortadela italiana DOP: o miolo escurecido e seco não guarda qualquer semelhança com o embutido rosado, fresco, úmido e perfumado que se produz na capital da Emilia-Romana.
A partir da Segunda Guerra, a boa mortadela artesanal tornou-se mais difícil de ser encontrada no Brasil. Nessa situação, o consumidor brasileiro tratou de rebaixar o produto industrializado como item de segunda classe.
Como quase tudo, o parâmetro imediato para identificar a boa mortadela é o preço. Vale checar a procedência e o rótulo.

Revista: Céu Azul n°44 pg. 16

Gauchinho sabe matemática além da conta

Some uma curiosidade sem tamanho com vontade de aprender. Multiplique por inteligência. Divida por generosidade. O resultado é Mateus Walter Nascimento, 12 anos, aluno de uma escola pública de São Paulo e professor nas horas vagas. Sim, ele dá aulas de matemática no viaduto do Chá, centro da capital paulista. Todo santo dia, sai da pensão onde vive com a mãe carregando uma lousa branca, canetas coloridas e disposição. No meio da multidão, ele ensina raiz quadrada, equações complexas e o teorema de Pitágoras a quem estiver disposto a aprender. Responde a dúvidas, faz cálculos. Depois, guarda todo o “equipamento de trabalho” e segue para a escola.
Mateus nasceu no Rio Grande do Sul.
Pequeno mudou-se para São Paulo, quando a mãe precisou mudar de vida. Foi na cidade grande que dona Regina percebeu as habilidades do filho. Mateus resolvia problemas complicados, compreendia fórmulas que ainda não havia aprendido na sala de aula. Aos oito anos já fazia equações de segundo grau parecer brincadeira de criança. Começou a se apresentar nas ruas. Foi convidado para programas de tevê, gravou até DVDs com dicas pessoas que vão prestar concursos públicos.
O jovem geniozinho calcula probabilidades e sonha. Quer ser engenheiro. Já fez as contas e descobriu que para chegar lá só precisa de dedicação. “Com a matemática você organiza contas, dividas. A matemática está no dia a dia, no inglês, no português, na história. Até para fazer sua vida”, filosofa ele.

Autora: Laís Duarte
Revista: Brasil N°163 Ano 14 Pg. 10



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A árvore
 
Os galhos, os ramos, as raízes. O tronco
Nada disto é a árvore
Nem mesmo a sombra
Nem mesmo a seiva e os frutos.

A árvore é essa solidão solene que ela cria,
São os pássaros que ela chama e agasalha
E nela cantam,
São os peregrinos que buscam o refúgio
 de sua sombra,
é esta desperdiçada e gratuita bondade
de seus frutos oferecidos.

A árvore é todo esse mundo que ela cria em
Torno de si,
é toda essa beleza com que enfeita a paisagem
e faz de um canto qualquer da terra
um refúgio de paz
onde poderemos descansar
de nossas agonias.

Poemas de Daniel Lima
Pg. 115
O caqui
 
O vento, o vento ali.
Mínino sol por d’entre
galhos, de trás, de frente,
álacre, o caqui.

Um ser-aí. Cá, aqui.
Redondo gesto e gesta
Vegetal, e uma festa
De cor, pingo no i.

Bem maior que a pi
tanga, menor que a manga,
o seu raio (ex) sangra,
dois, vezes o pi.

A pele trans (luz). Si
dá. A carne é mansa. E dentro
o hirto centro: semente
do existir e hífen

do prazer. Não vi?
E é fruta. E ou é fruto
do inconsciente? Abrupto
estar, não-ser-aí?

Ou é silêncio ou grito?
Ou é sumo ou suma
Teológica? Uma
Fruta? Fruto-em-si?

Comi? Ou não comi?
E é acre. Doce. Pouca.
Nódoa, travo na boca.
 O vento, o vento ali

Autor: Rubem Alves
Livro: Variações sobre o prazer
Pg. 100/101

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Causas inusitadas da infecção urinária
 
Intestino travado, pedras nos rins e obesidade são alguns dos fatores que podem responder por episódios recorrentes da doença

As diferenças entre o corpo da mulher e o do homem vão além daquelas que nos saltam aos olhos. O canal da uretra, por onde sai o xixi, é uma das diversidades que ficam escondidinhas. Enquanto na ala feminina essa via de saída mede cerca de 5 centímetros, na turma do Bolinha chega à incrível marca de 22 centímetros. A conseqüência da discrepância não é nada vantajosa para as mulheres. Isso porque, nelas, bactérias que se metem a instrusas têm um caminho muito mais curto a percorrer até alcançar a exiga. Quando chegam ao órgão, costumam fazer estragos. Daí a vontade de urinar fica intensa, há dor e a urina ás vezes vem acompanhada de sangue. É a cistile, nome formal da infecção urinária, que acomete de 20 a 30% da população feminina em certa fase da vida.
Só que, para metade dessa turma, a encrenca evolui para uma infecção urinária de repetição – quando são deflagrados mais de três episódios por ano ou dois por semestre. “Esse quadro é preocupante ao abrir uma brecha para a pielonefrite – infecção mais grave porque, no caso, já afeta os rins”, alerta o urologista Milton Skaff, do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Sem contar que a reincidência pode demandar o uso constante de antibióticos.
Por isso, é de suma importância descobrir os estopins da doença. E muitas vezes eles são um bocado surpreendentes, dificultando a associação de um primeiro momento, vai imaginar que a prisão de ventre é capaz de contribuir para uma infecção no trato urinário? Ou que, verdade, os quilos extras estão colaborando para a chateação? Difícil, certo? A seguir, esclarecemos por que esses e outros fatores têm uma relação, digamos, íntima com a cistile.

1.     Obesidade

O vínculo é indireto, mas existe. Acompanhe o raciocínio: quem está muito acima do peso costuma exibir dobrinhas em várias partes do corpo. A característica muitas vezes dificulta a perfeita higiene da região genital após urinar e cria o cenário perfeito para as bactérias fazerem a festa. Mas atenção: a limpeza em excesso também não é boa. “Isso altera a flora vaginal, resultando em uma expulsão de bactérias protetoras dali” esclarece Wladimir Alfer Júnior, urologista do Hospital Israelita paulista. A recomendação é evitar duchas íntimas, sprays com aromas e outros itens capazes de desequilibrar a flora.
2. Segurar xixi
 Não use banheiros públicos – está aí um conselho de mãe que se pode ignorar, tomando os devidos cuidado com superfícies sujas, é claro. É que xixi parado na bexiga por muito tempo cria o ambiente perfeito para a proliferação de bactérias do mal. “Urinar funciona como uma lavagem contínua”, informa o ginecologista José Geraldo Lopes Ramos, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Apesar de nada romântico, o ato também é indicado logo depois da atividade sexual, quando podem ocorrer microfissuras na região da uretra, facilitando a aderência de micro- organismos. Com uma escapadinha ao banheiro, você expulsa os pequenos invasores.
3. Constipação
 Na famosa prisão de ventre, os problemas vão além do desconforto abdominal. Pela anatomia feminina, as bactérias do trato gastrointestinal, empacadas, têm facilidade em migrar para uretra, contaminando-a. “A culpada pela maioria dos episódios de cistile atende pelo nome de Encherichia coli. Essa é uma bactéria que vive no intestino, onde não cria problemas. Mas, quando passa para a área da vagina, complete com micro- organismos que vivem naturalmente ali”, descreve Milton Skoff, da Beneficência Portuguesa. Daí, se a intrusa domina o terreno, cresce o risco de infecção. “De fato, nas pacientes constipadas detectamos uma maior colonização de micro-organismos do intestino na região vaginal”, confirma o especialista.
4. Camisinha
Calma! Não vá achando que nesse tópico você vai encontrar um sinal verde para dispensar o preservativo durante o sexo. Jamais. O único contratempo é que os espermicidas – substâncias responsáveis por matar os espermatozóides – modificam a flora vaginal, deixando as mulheres mais suscetíveis à ação maléfica das bactérias. A saída, então, é procurar camisinhas sem o tal espermicida ou que tenha a substância na parte interna, para o gel ficar em contato apenas com o pênis.
5. Cálculo renal
“Em certos casos, as pedras que se formam nos rins são ocasionadas por uma bactéria que interfere na acidez da urina, facilitando o depósito de sais”, explica Fernando Almeida da Universidade de São Paulo (Unifesp). O problema? O risco de esse micróbio também financiar a temida cistile. “Há a possibilidade, inclusive, de o cálculo renal culminar direto infecciosa, que é a pielonefrite”, alerta Skaff. “Mas essa relação entre pedra no rim a infecção urinária é exceção não a regra”, afirma o médico da Unifesp. De qualquer forma, o recado é sempre investigar. Assim, evita-se o uso constante de antibióticos e o surgimento de um exército perigoso de bactérias resistentes.

Revista: Saúde
Por: Thaís Manarini
Pg. 38,39,40-41